Midas, as orelhas de asno e a fofoca

                           Após um desentendimento com o rei Midas, Apolo xingando-o de asno tocou-lhe as orelhas que, no mesmo instante, começaram a crescer, ficarem pontudas, peludas e passaram a se mexer involuntariamente tais como   orelhas de um asno. Midas muito envergonhado cobriu-as com um chapéu e nunca as mostrava para ninguém, com exceção de seu barbeiro.

            O rei ameaçou matar o barbeiro caso ele contasse  o segredo a alguém. O barbeiro prometeu que não contaria, mas o tempo foi passando e a ansiedade do barbeiro foi aumentando, aquele segredo parecia estar prestes a explodir em sua garganta, ele não aguentava mais guardá-lo. Precisava passá-lo adiante para diminuir sua angústia. Dirigiu-se às margens de um rio, cavou um buraco, cochichou dentro dele: “Midas tem orelhas de asno” e, imediatamente, tapou para que o segredo não escapasse. Que alívio, agora ele poderia esquecer e seguir como se nada soubesse, mas o que ele não contava é que naquele buraquinho, nasceria uma plantinha, um junco que ao romper a terra começou a repetir o segredo. Logo todas as plantinhas do local repetiam a frase, levada pelo vento, e os passarinhos que por ali viviam começaram a repetir também de tanto ouvir: “Midas tem orelhas de asno”. Tudo corria em paz, até chegar aos ouvidos de Melâmpus, um humano que compreendia a linguagem dos pássaros.

            Melâmpus espalhou a novidade para seus amigos e logo todo o reino sabia das orelhas de Midas.

            Um dia Midas passeava em sua carruagem por uma rua  movimentada quando ouviu as pessoas gritarem em coro: “Midas mostre-nos suas orelhas de asno!”.

            O rei ficou enfurecido, mandou enforcar o barbeiro e suicidou-se em seguida por não poder encarar mais ninguém de tanta vergonha.

            A narrativa deste mito  ilustra um problema cotidiano, a fofoca e o seu poder de destruição. A fofoca é irresistível, mas perigosa, o barbeiro sabia que seria castigado se passasse adiante o segredo de Midas, seu soberano, mas aquele segredo atormentava-o, mesmo não lhe dizendo respeito, mesmo sabendo que poderia ser morto.

             A fofoca pode trazer consequências desastrosas e irreversíveis. O homem é um comunicador, passar informações é um ato natural, mas ao passar informações caluniosas sem pensar no próximo e nas consequências, o caluniador causa o mal ao caluniado e a si mesmo.

            Causa o mal ao caluniado porque esse passa a sentir vergonha, fica humilhado e, dependendo do teor da fofoca, pode até ser excluído pelos seus semelhantes. Quanto ao caluniador, acaba sendo apontado como fofoqueiro e, com o passar do tempo, fica desacreditado e passa a ser evitado em seu grupo social, transformando-se no famoso “desmancha rodinhas”. 

Uma resposta to “Midas, as orelhas de asno e a fofoca”

  1. Roberto Múcio - às 09:07 #

    Desculpe, mas não acredito que a fofoca esteja vinculada a esse mito. A fofoca é um fato social presente em todas as culturas porque os segredos são normalmente partilhados. Mas reconheço engenhosa essa vinculação. As orelhas de burro foram postas por Apolo no rei Midas para simbolizar que ele ouvia mal; que ele não entendia de música. Foi porque na peleja musical entre Apolo e Pã, Midas afirmou que a musica tocada por Pã era mais bonita do que aquela de Apolo. Daí porque Apolo frustrado com essa opinião lhe pôs as famosas orelhas de burro para provar que ele não ouvia bem, logo não saberia distinguir a qualidade da música por ele tocada. Esse é o foco principal do mito e não a questão suplementar da fofoca.

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